quarta-feira, 2 de novembro de 2016

FATOS E NOTAS – GUAIPACORÉ – Região e porto do Vale do Paraíba por Paulo Pereira dos Reis.


O porto de Guapacoré, Ipocoré ou ainda Hepacoré, situado antes do rio Paraíba encochoeirar-se, era o último ponto de escala, no Vale, para as bandeiras que buscavam o ouro mineiro. Do mencionado ancoradouro fluvial os viajantes se dirigiam para a garganta do Embaú, onde atravessavam a Mantiqueira em demanda dos sertões dos cataguá.
Avevedo Marques (1) afirmou que Taubaté é a corrupção da palavra Itaboaté, nome da aldeia dos índios guainá que se fizeram inimigos de outros da mesma nação e dos portugueses.
“quando se extinguiu a vila de Santo Andre, por cujo motivo mudaram-se dos campos de Piratininga, ao passarem-se para ele os oradores daquela vila, e foram habitar partes deles na região então conhecida pelo nome de Ipacoré em que estão assentes as cidades de Taubaté, Guaratinguetá e Lorena”
Como se vê, Azevedo Marques julgava que os indígenas, antes do povoamento do Vale do Paraíba, designassem como Ipacaré a vasta região que inicia em Taubaté e se estende às terras de Lorena.
Foi provavelmente, louvando-se nessa erudita fonte que Athayde Marcondes, em História de Pindamonhangaba (2), escreveu sobre o verbete “Ipocoré”.
“Nome dado à região onde viviam os selvagens puris e gerominis. Estendia-se desde Taubaté até Lorena. Os guainases também se fizera inimigos dos selvagens dessa tribo  dos portugueses de Piratinunga”
No entanto, após o inicio do povoamento o vocábulo Ipocoré passou a designar, gradativamente, região menor para finalmente denominar apenas as terras que pertencem à vila de Lorena no século XVIII. A denominação supra referida também foi aplicada, não pouca vezes, a um rio existente no porto ou em sua proximidades, como veremos: João Manoel Branco, que esteve na direção as minas de São Paulo, até 1639, quando foi substituído por Antão Lopes da Horta, por ato do Conde de Torre, de 14 de setembro do citado ano, quis uma data de 11 (onze) léguas de terras, em quadra, no sertão no “rio Guaipacaré” (3). O General Artur de Sá e Menezes, Governador do Rio de Janeiro, concedeu ao João de Castilho, da vila de Guaratinguetá, uma provisão da passagem do “rio Pocoré) (4). Mas, no mesmo documento, linha acima, está escrito “Porto que havia chamado de Pocoré”.
Alfredo Moreira Pinto registrou, em Dicionário (5), “Guaipacoré (Hepacoré, Ipocoré segundo outros) era o nome que tinha o rio hoje denominado Taboão”.

Vejamos a interpretação de João Mendes de Almeida:


“Esta povoação era antigamente conhecida pelo nome de Guaipacoré; e pelos que navegavam o rio, era dito – o porto de Hepacoré. E já li que isto significava, em linguagem tupi, lugar das goiabeiras.

Hepocoré é corrupção de I-páu-qua-ré, enseada da ilha do rio, De i-páu, ilha do rio, aqua, esquina, yere, volta, formando aquá-yere, enseada, ou volta que o rio faz”

“Em verdade, nessa região, há uma ilha, em forma triangular, de sorte que, pelo braço, do rio, à margem esquerda, que navega tem de fazer uma grande volta; ao passo, que pelo outro braço; à margem direita, é quase reto o trajeto. A povoação estando à margem direita, é quase reto o trajeto. A povoação estando à margem direita, era Guaipacaré, corruptela de Gu-i-páu-áqua-rehé, “em frente da ilha esquinada”. De gu, recíproco, para exprimir comunicação, i-páu, ilha do rio, áqua, esquina, ponta, rehé, em frente. Por contração Gu-i-páu-quá-ré (O som o i é gutural, com a fechado)” (6).
Também se encontra em documento coloniais a palavra Aguapocoré, como registra a sesmaria concedida, em 18 de maio de 1707, pelo Governador do Rio de Janeiro, Fernando Martins Mascarenhas de Lencastro, a Bento Rodrigues Caldeira morador 

“no caminho das minas há mais de doze ano, com sua casa e família onde chamam Águapocaré Porto onde desembarcam os Mineiros”....(7).

Julgo mais adequada de todas a interpretação de Teodoro Sampaio que, aliás, não registra os verbetes, Ipacoré, Pocoré, Hepacoré, Guaicacaré, nem Guaypacoré, apenas Guapocoré, 

“corr. gua-upá-coré, a lagoa torta da baixada, ou antes – o braço do rio (8), porque, na minha opinião, melhor se ajusta ao braço do Paraíba que existiu.
Capistrano de Abreu adotou essa mesma grafia-Guapocoré – em seus Capitulo da História Colonial (9). Aliás no registro da sesmaria concedida a Martinho Silva Costa (10) há as seguintes palavras: 

“Freguesia de N. S. da Piedade de Goapocoré”
A corruptela para Hepacoré foi feita pelos usuários do antigo porto fluvial.
Ainda que seja satisfatória a explicação supra é lamentável que o desconhecimento, quase completo, da língua dos puri nõ permita também um estudo da origem do vocábulo sob outro prisma. O restrito vocabulário, desse grupo de ameríndios, que consultei, recolhido, em 1885, por Alberto de Noronha Torrezão e publicado na Revista do Instituto Histórico (11), fruto de apontamentos obtidos em apenas dois dias é, evidentemente, pelo açodamento da pesquisa e pelo exíguo espaço de tempo e que foi colhido, incompleto e lacunoso, nada contribuindo para o exame da palavra Guapocoré através da língua dos antigos habitantes da região lorenense, no médio Paraíba.
A) -  Hepacoré, situado antes do rio Paraíba encochoeirar-se
Nota: Quanto a assertiva pode-se determiná-la com bastante precisão, uma vez que  Auguste de Saint-Hilaire, quando de sua passagem pela Vila de Lorena, em 1822, afirma que a navegabilidade do rio Paraíba, a partir da localidade, era inviabilizada em decorrência das  Catadupas.
B) -  último ponto de escala, no Vale, para as bandeiras que buscavam o ouro mineiro.
Nota: Definitivamente à partir do Guaipacaré, o caminho percorrido era por um afluente do rio Paraiba, o ribeiro da Limeira. 
C) - Do mencionado ancoradouro fluvial os viajantes se dirigiam para a garganta do Embaú,
Nota: Após passar pelo Registro (Piquete-SP), um dos caminhos iniciava-se no Vale do Embaú, em demanda da Vila de Conceição do Embaú e a garganta no mesmo nome.
D) -  "onde atravessavam a Mantiqueira em demanda dos sertões dos cataguá."
Nota: Além da Garganta do Embaú, outro ponto de travessia da Mantiqueira era pelo Alto da Serra, Garganta do Sapucai, espaço colonial de Piquete-SP
E) -  A denominação supra referida também foi aplicada, não pouca vezes, a um rio existente no porto ou em sua proximidades, como veremos:
Nota: O rio em questão é necessáriamente, por ser o único, o ribeiro da Limeira. 
F) - João Manoel Branco, que esteve na direção das minas de São Paulo, até 1639, quando foi substituído por Antão Lopes da Horta, por ato do Conde de Torre, de 14 de setembro do citado ano, quis uma data de 11 (onze) léguas de terras, em quadra, no sertão no “rio Guaipacaré” (3).
Nota:  Uma das minas era a localizada na Serra de Jaguamimbaba, descoberta por Afonso Sardinha em 1597, lado Paulista da Serra da Mantiquera.
G) - Bento Rodrigues Caldeira morador  “no caminho das minas há mais de doze ano, com sua casa e família onde chamam Águapocaré Porto onde desembarcam os Mineiros”....(7).
Nota:  É possível desconsiderar que a data de terra de 11 (onze) léguas, ou seja,  73.260 km (1 légua = 3000 braças = 6.000 varas = 30.000 palmos = 666.000 centímetros = 6.660 metros),  em quadra no sertão no rio Guaipacaré, no caminho das minas, considerando que estamos falando do mesmo caminho em direção ao pé  da Serra da Mantiqueira, que transposta, alcança a região do Alto Sapucai, pretendida, por João Manoel Branco, não fora passada a Bento Rodrigues Caldeiras. Estando o Núcleo Embrião de Piquete-SP, contido nesse caminho e  roças. Ou o preço absurdo pago por uma galinha na transposição da Serra da Mantiqueira, nas palavras de Andre João Antonil, não era decorrência de um monopólio resultante da exclusividade, de produção e venda do necessário ao sustento dos sertanistas.
(1) - MANUEL EUFRÁZIO DE AZEVENDO MARQUES, apontamentos históricos, geográficos, estatísticos e noticiosos a Província de São Paulo, publicação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, Tipografia Universal de Eduardo & Henrique Laemmertm, 1879, vol. 1. Pág. 177.
(2) - ATHAYDE MARCONDES, Pindamonhangaba – apontamentos históricos, geográficos, genealógicos e cronológicos – 1680-1906. Verbete Ipocoré, pág. 122.
(3) - PEDRO TAQUES, Nobiliarquia Paulistana, Histórica e Genealógica, vol. 2. Pág. 332.
(4) - Alvará de sesmaria e provisão de passagens de rios a João dos Reis Cabral, dados por D. Fernando Martins Mascarenhas de Lancastro, de 10-11-1705. Documentos Interessantes, vol. II. Págs. 314-317.
(5) - Dicionário Geográfico do Brasil. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional. 1898. Vol. 2. pág. 381.
(6) - Dicionário Geográfico da Província de São Paulo. São Paulo. Tipografia Espindola. Siqueira & Cia. – 1802. Verbete Lorena.
(7) - Documento Interessantes. Da. Coleção “Governadores do Rio de Janeiro”. L. XVIII. fls. 15v – vol. 52, págs. 70-72.
(8) - Teodoro Fernandes Sampaio – O Tupi na Geografia Nacional. 1.º edição, s/d. prefácio datado da Bahia, 8 de março de 1928; pág 255.
(9) - Livraria Briguiet. Rio de Janeiro, 1954, pág. 180.
(10) – Livro 1.de Sesmarias, fls. 107, verso. Arquivo do Estado de São Paulo.
(11) – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Tomo LII, Parte I. Rio de Janeiro. Tipografia, Litográfica de Laemmenrt de Cia. 1889. págs. 511 a 514