quinta-feira, 3 de novembro de 2016

VIVER E MORRER SOB O SIGNO DA ESCRAVI DÃO: IRMANDADES, ESCRAVOS E LIBERTOS EM VILA RICA SETECENTISTA por JULIANA APARECIDA LEMOS LACET (Transcrição)

 CAPÍTULO 2
DIFERENCIAÇÃO ENTRE ESCRAVOS NAS IRMANDADES
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 2.3 IRMANDADES NEGRAS E DIFERENCIAÇÕES ÉTNICAS
A análise da inserção e reorganização dos cativos no Novo Mundo não deve desconsiderar os critérios étnicos criados pelo tráfico de escravos e reinventados no cativeiro. Como sabemos, as irmandades negras foram locais de intensa sociabilidade entre  os africanos e muitas vezes os membros destas associações utilizaram estes critérios de identidade baseados nas “nações”, vigentes entre os africanos no seio da sociedade, para estabelecer regras no interior de suas associações. Entre estudos que combinaram a questão étnica e as irmandades negras, podemos  destacar para o Rio de Janeiro, o já citado trabalho de Mariza Soares e o trabalho conjunto de Juliana Barreto, Carlos Eugênio Líbano Soares e Flávio Gomes, intitulado “No Labirinto das Nações: africanos e identidades no Rio de Janeiro , neste trabalho os autores através de fontes como  registros policiais, anúncios de jornal, registros da Casa de Detenção e livros de registros de licenças para “ganhadores livres”, buscam entender as identidades forjadas e criadas por africanos nos séculos XV III e XIX, na cidade do Rio de Janeiro. Para a Bahia,  os estudos de João José Reis e Lucilene Reginaldo e, para Curitiba, o trabalho de Marcos Medeiros Lima. Este último autor, além de analisar o Rosário de Curitibano, oferece uma ampla visão das irmandade s de negros na colônia e império, nas mais diversas localidades,  Recife, Belém, Goiás, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Salvador, incorporando-as à discussão das identidades étnicas.37 João José Reis, analisa o comportamento étnico em algumas irmandades negras de Salvador e do Recôncavo baiano. Nelas o autor consegue enxergar, além das relações entre africanos, as procedências em um sentido mais amplo, levando também em consideração as relações entre crioulos, pretos e brancos. Conclui que estas irmandades, apesar da política da diferença entre os irmãos, foram um importante veículo de resistência à escravidão.  Lucilene Reginaldo, além de traçar um perfil amplo das irmandades negras na Bahia, trata destas irmandades e da origem das devoções escravas em território africano e português. Sobre as “irmandades de nação”, assim por ela chamadas, a autora admite a  existência de irmandades que tinham como base a questão étnica, mas descarta a idéia de radicalismos profundos, tendo em vista que o cotidiano no cativeiro e a convivência dos africanos com as populações crioulas e mestiças fizeram com que as relações étnicas nas irmandades, com o tempo, se tornassem mais flexíveis. Mariza Soares, por sua vez, estuda a Irmandade de Santo Elesbão e Santa Efigênia na cidade do Rio de Janeiro no século XVIII, e os conflitos e alianças étnicas entre os escravos e forros, confrades daquela associação. Os estudos sobre irmandades mineiras de Célia Aparecida Borges e Julita Scarano também perpassam pela questão das identidades  étnicas escravas. Apesar da etnicidade escrava não ocupar papel central em sua obra, Julita Scarano, descreve as várias “nações” encontradas no interior da irmandade por ela estudada. Diz mesmo, que havia intenção deliberada da administração portuguesa em misturar as diversas etnias para assim enfraquecer os grupos que poderiam se formar ao redor das tradições comuns. Segundo ela, o incentivo à mistura de costumes diversos favorecia a denúncia de revoltas e a fiscalização senhorial. Mas mesmo aceitando que havia rivalidades entre “nações” distintas, a autora aponta para uma união entre essas “nações”, pois apesar de compostas por elementos díspares do ponto de vista cultural eram unidas pela mesma condição social, a condição escrava.38 Célia Borges se deteve mais à questão étnica nas irmandades negras mineiras, e viu nestas associações, um local de constante aprendizado, de respeito às diferenças, e reconstrução cultural no contexto da diversidade étnica e opressão do sistema escravista. A autora acredita que “participação” foi a palavra chave para a ausência de conflitos étnicos nas irmandades negras mineiras. Segundo ela, as irmandades foram capazes de neutralizar os possíveis conflitos entre os irmãos de diferentes nações, através da interação com os assuntos religiosos. Irmandades erguidas sob a égide das distinções étnicas foram um fenômeno comum  em território colonial. Em seus compromissos estas associações abriam suas portas para  certas “nações” e barravam outras. Em alguns casos, as irmandades permitiam a entrada de pessoas de qualquer “nação” como irmãos mas restringiam os cargos da mesa a uma  “nação” específica. Em Salvador, por exemplo, na Irmandade do Rosário dos Pretos da Igreja da Conceição da Praia, em finais do século XVII, o compromisso previa a participação de pessoas de origens diversas, brancos, angolas, mulatos e crioulos, mas  dentre estes somente angolas e crioulos poderiam compor a mesa.39 As irmandades negras do Rio de Janeiro também estavam divididas segundo critérios étnicos. Na irmandade do  Rosário se reuniam os angolas e os congos, na irmandade da Lampadosa estavam os  moçambiques, enquanto os minas se reuniam na irmandade de Santo Antônio da Mouraria  e na de Santo Elesbão e Santa Efigênia.40 Nos compromissos das irmandades da região mineradora não se observa a idéia de separação por “nações”, mas, o que nos chama atenção é a existência de relatos sobre situações tensas na região entre os diversos grupos étnicos de escravos. Em correspondência à Coroa em 1719, o conde de Assumar,  informa sobre a ameaça de uma conspiração particularmente ampla, que pretendia massacre geral de todos os brancos, numa Sexta-feira Santa, quando estariam eles assistindo à missa e desprevenidos.41 Entretanto, esta revolta teria malogrado no último momento porque os minas e angolas não teriam chegado a um acordo quanto a qual das duas  “nações” iria fornecer o rei que pretendiam proclamar, depois do extermínio dos senhores. Como relata D. Lourenço de  Almeida: “os negros intentaram sublevarem-se contra os brancos o que conseguiriam, se não houvesse entre eles a diferença de que os negros de Angola queriam que fosse Rei de todos um do seu Reino, e os Mina também de que fosse da sua mesma pátria”.42 Na paróquia de Nossa Senhora da Conceição em Vila Rica, a Irmandade do Rosário dos Pretos do Alto da Cruz, era a irmandade cuja devoção estava ligada aos escravos de uma forma geral, portanto iremos analisar alguns documentos referentes a esta associação  no intuito de observarmos o comportamento étnico entre eles, além das relações entre estes escravos e os libertos, os crioulos e os brancos.
Fonte: Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia sob a orientação do Prof. Dr. Carlos Eugênio Líbano Soares. link http://migre.me/vpWvq