terça-feira, 22 de novembro de 2016

I - ÁREAS PROIBIDAS (Transcrição)

À PROCURA DO OURO e pedras preciosas, seguiram os bandeirantes, desde os primórdios da historia colonial, rumo ao interior. Da baia da Guanabara teria saído, em abril de 1531, a primeira expedição a tocar a Mata das Minas Gerais. Pandia Calógeras1 tentou reconstituir-1he o roteiro, e Derby admitiu a possibilidade da entrada. Eram quatro portugueses a explorar o sertão da costa do Rio de Janeiro. Conta-nos Pero Lopes de Sousa, em seu Diário, que eles, durante sessenta dias, andaram cento e quinze léguas pela terra, sessenta e cinco delas por montanhas e cinqüenta por um campo muito grande. Basilio de Magalhães duvidava de que apenas quatro homens pudessem aventurar-se a tão profundo embrenhamento. Impossível, porém, nunca seria que, transposta a serra dos órgãos, houvessem os desbravadores vadeado o Paraíba, pisando a terra mineira. 1
De pontos diferentes outros buscaram ainda as cabeceiras do São Francisco, partindo ora do norte, ora do sul.
Estimulados por cartas régias, a prometerem honrarias e prêmios aos descobridores de riquezas, acompanhavam os cursos dos rios maiores e de seus afluentes. Contornaram, nas investidas, os Sertões do Leste, atual Mata Mineira e neles penetraram.
Em 1554, Brás Espinhosa partia ao rebusco de ouro e prata. Residente em Porto Seguro, substituía no comando da expedição a Filipe de Guilheme, que se furtara à incumbência, com alegar idade e moléstia. 0 Padre Manoel da Nóbrega seria também rendido por outro sacerdote, João de Aspilcueta de Navarro.2 "
Quando do aprestamento da bandeira, em 1553, já Tome de Sousa fora trocado por Duarte da Costa no Governo-Geral. Brás Espinhosa, de quem Mem de Sá dizia ser homem de bem, de verdade e de bons espíritos, intentou a descoberta das minas. Durante meses caminhou as matas e campos, tocando a nascente do Jequitinhonha. Margeou-a e das cercanias de Diamantina atingiu o São Francisco, prosseguindo por um de seus tributários da margem direita. Talvez pelo rio Pardo retornasse em 1555. Andara nessa marcha próximo à Zona da Mata, e a experiência, enriquecida por buscas seguintes de Vasco Rodrigues Caldas, procurando entranhar-se pelo rio Paraguaçu, disporia a penetração pela bacia do Doce.3
A entrada de Martim de Carvalho, realizada em 1567 ou 1568, esquadrinhou, durante oito meses, o curso do Jequitinhonha, vagueando ainda por trato onde se ligam as bacias do precitado rio, do Doce, do Mucuri e do São Mateus. Dela nos fala Pedro de Magalhães de Gândavo.4
Ao fim, teria Sebastião Fernandes Tourinho atingido os Sertões do Leste. Nas andanças perdeu-se em marchas e contramarchas. O roteiro está descrito por Gabriel Soares de Sousa.5 Conta-vos o autor do Tratado Descritivo do Brasil em 1587, que Tourinho, morador em Porto Seguro, com certos companheiros entrou pelo sertão, perambulando alguns meses à ventura, sem saber por onde, e meteu-se tanto pela terra a dentro que se achou em direito do Rio de Janeiro. Assim o perceberam pela altura do Sol, que Tourinho muito bem sabia tomar e por conhecerem a Serra dos Órgãos.
Gabriel Soares refere-se noutro lanço à mesma expedição, ao descrever o curso do Doce. Este rio, comenta o historiador, vem de muito longe e corre para o mar quase leste-oeste, pelo qual fez Tourinho uma entrada, navegando por diante até onde o ajudou a maré. Transpondo um braço acima, chamado Mandi, desembarcou, caminhou por terra obra de vinte léguas e foi dar com uma lagoa, da qual nasce um rio que se mete no Doce. E serpeando esta gente ao longo dele, andaram quarenta dias com o rosto a oeste.6
Orville A. Derby admitiu duas expedições de Tourinho. Na primeira, procedente do Cricaré, alcançou-se Juparanã e o trecho do Doce entre a lagoa e o mar. Na segunda, explorou-se o rio, seu afluente Suaçuí e a região do Serro. As pedras verdes encontradas poderiam ser do distrito diamantino, onde há minerais confundiveis com turquesas. Pode-se também interpretar a aventura como tendo Tourinho subido pelo Urupuca, descido pelo Itamarandiba até encontrar o Araçuaí. Derby não cria em explorações ao sul do Doce. Se houvera, talvez, uma entrada pelo rio Manhuaçu.7
Com analisar o itinerário do lusíada, Capistrano de Abreu, ressalvando a escassez de dados para a determinação dos pontos descritos na rota, supõe que duas tenham sido as empresas. Partiu a primeira da capitania de Porto Seguro, na diretriz de Espinhosa e Carvalho. Tomaria o Jequitinhonha, dele se apartando nas zonas em que as cachoeiras amiudadas dificultavam a navegação. Teria dai procurado o São Francisco, cuja bacia vagueou até alcançar algum afluente do Paraíba nascido na Mantiqueira, que o levasse a avistar a serra dos Órgãos.8 Seria a entrada havida por primeira, a mais ocidental, empreendida por quem não adquirira a experiência do sertão ou não entendera as explanações pouco precisas de seus guias.
Quanto à segunda, navegou o Doce ate as suas margens elevadas, onde ainda as cachoeiras não lhe obstruem o leito. Entrou, em seguida, no Guandu (Mandi de Gabriel Soares de Sousa), desembarcando dele e seguindo por terra umas vinte léguas em rumo OSO, até uma lagoa onde sai um rio em rumo leste, perlongado por setenta léguas, durante quarenta dias, em rumo de oeste, novamente ao Doce.
A região teria sido pervagada pelos bandeirantes de Tourinho. Encontrando as nascentes do Manhuaçu, numa lagoa, desceram-no por mais de trinta léguas, tomando o oeste até alcançar o Doce. A trajetória para chegar às cercanias do Araguai, onde encontrou Tourinho as esmeraldas, teria cortado o norte da Zona da Mata.
As referencias de Gabriel Soares de Sousa a Tourinho parecem ser a causa de atribuem-se-lhe as duas expedições. Entretanto, o segundo relato seja, talvez, desenvolvimento do primeiro. Inadmissível que em alguns meses pudesse o bandeirante, subindo o São Francisco ou o Doce, alcançar as imediações do Paraíba. A fim de avistar a serra dos Órgãos, teria de tomar qualquer outro curso e retornar pelos mesmos caminhos. A referencia de Gabriel Soares de Sousa as andanças à ventura diz respeito, possivelmente, ao trajeto do Guandu ao Manhuaçu. Antes de descer em direção ao Doce, a partir do ultimo rio, é provável que Tourinho se impressionasse com a serra de Caparaó, vista do oeste, que certa semelhança tem com a serra dos Órgãos.9
Vinte anos após têm inicio as entradas do ciclo espírito-santense, orientando-se pelas rotas de Tourinho e Adorno. Mas as penetrações parece não buscarem as margens direitas do rio Doce e sempre tomarem seus afluentes esquerdos. Em 1693, cem anos depois, outra aventura dirige-se de Taubaté à Mata Oriental das Minas. Rodeado de cinqüenta homens, seguiu Antônio Rodrigues Arzão em procura de Itacolomi. De Itaverava marchou ate a serra do Guarapiranga, agora chamada do Sanches. De lá divisou as grimpas de Arrepiados. Descendo em sua direção, fronteou com o rio Piranga, onde vagavam puris, que lhe deram noticias do rio Casca, originário da cordilheira cobiçada. Mal guiado, passou pelo atual Visconde do Rio Branco, antigo Presídio, indo bater na serra do Granadeiro ou Brigadeiro, que o sertanista tomou, a olho, pela Itacolomi. Chegando ao Casca, estava a comitiva quase destruída por males e combates. Nas cabeceiras do rio, tirou oitavas de ouro. Os puris dele se aproximaram, interessados em proteção contra os botocudos. Atacado de febre intermitente, carregado numa rede, Arzão arrepiou carreira pela margem do Xopotó em direitura ao Espirito Santo.
As indicações de sua jornada legou-as ao concunhado Bartolomeu Bueno de Siqueira, que, seguido pelos companheiros Miguel e Antônio de Almeida, retomou a trilha em princípios de 1694. Alcançou Itaverava, novamente encontrando indícios de ouro. Na mesma época, partia de Taubate o Coronel Salvador Fernandes Furtado, acompanhado pelo Capitão Manuel Garcia Velho. Dirigiram-se para o Doce, a chamada "Casa da Casca". à procura de índios. Tais investidas de apresamento e pesquisa de riquezas facilitariam a futura penetração nos Sertões do Leste.10
Perdeu-se a crônica de inúmeras arremetidas rumo ao Paraíba. Malogradas quase sempre, ficaram sem o merecido registro na Historia. Findo o ciclo do descimento do gentio, caracterizado pelo cunho predatório, sobreveio o bandeirismo pesquisador. Aquelas primeiras incursões, rápidas em suas passagens, brutais e despovoadoras, não haviam deixado núcleos de povoamento.
Já a bandeira de Fernão Dias Pais assumiria um papel de empresa permanente, no dizer de Afonso de Taunay. Em sua rota, fundava povoados, plantando roças, edificando pousadas e deitando raízes de colonização. Tangenciando o curso do Paraíba, invadiu o território mineiro pela garganta do Embaú. A bandeira, em seu pioneirismo, levaria a descoberta do ouro.
Dela também nasceria o caminho das Minas de Cataguá e do rio das Velhas.11 Ao trajeto refere-se Antonil, nos princípios do século XVIII. Marchando de sol a sol, pelo mais áspero dos picadões, conseguia-se alcançar as Minas Gerais em menos de trinta dias. Do Rio de Janeiro fazia-se então a derrota, por via marítima, até Parati.12 Depois, por uma vereda, chegava-se no vale do Alto Paraíba. Assim o descreveria Andreoni: "De Parati a Taubaté. De Taubaté a Pindamonhangaba. De Pindarnonhangaba a Guaratinguetá. De Guaratinguetá às roças de Garcia Rodrigues. Dessas roças ao Ribeirão, com oito dias mais de sol a sol, chegava-se ao rio das Velhas."13
Porém a Mata não tinha qualquer vinculo com o Caminho Velho. Receberia, no século seguinte, os sesmeiros das minas decadentes, mas graças a outro roteiro.
Assim, em fins do século XVIII, Garcia Rodrigues Pais, filho de Fernãoo Dias, dispõe-se a abrir a estrada que encurtasse a viagem da Capital do Sul às Regiões das Minas.A oferta foi aceita pelo Governador Artur de Sá. No Caminho Velho estavam as suas roças – nas cabeceiras do rio Paraopeba – onde o picadão começou a ser aberto em 1688.
Venceu a Mantiqueira, encontrou o Paraibuna, tornejou-o até a sua barra no Paraíba, e pela serra dos Órgãos alcançou o Rio de Janeiro, passando pelo Registro do Paraibuna, Simão Pereira, Matias Barbosa, Sá Fortes, Juiz de Fora, Antônio Moreira, Engenho, Pedro Alves. Partindo, assim, da Borda do Campo, Barbacena atual, onde se reuniam as veredas dos rios das Velhas, das Mortes e Doce, o caminho passaria próximo às Áreas Proibidas.14
Em 1700 já representava a picada o desenvolvimento de vereda indígena, porem de difícil passagem para cavalgaduras. Seria, no século XVIII, o rumo do ouro buscando o porto e da mesma forma a rota dos negros e dos produtos manufaturados.15 Mais tarde, uma variante, denominada "por terra", dispensando o trajeto da baia da Guanabara até o Porto da Estrela, passaria por Iguaçu, onde encontra a serra, unindo-se no alto dela ao Caminho Novo, no local hoje chamado Encruzilhada. Outra variante, aberta nos primeiros anos do século passado, destaca-se da estrada por terra, em Pau Grande, e se dirige mais para o oeste, alcançando o território mineiro por Valença e Rio Preto. Estudando velhos caminhos fluminenses, esclarece Basílio de Magalhães que em 1819 a 1820 a Junta do Comercio do Rio de Janeiro mandou construir uma estrada a partir do Caminho Novo, em Iguaçu, e, em vez de atravessar a serra da Viuva, passou por outra parte, então denominada serra da Estrada Nova. Seguia-se dai para Vassouras, onde, subindo a esquerda ao lugar chamado Desengano e à direita e ao ponto conhecido por Comércio, ambos às margens do Paraíba, ia encontrar as vias comuns jáexistentes para Valença, Rio Preto e para o vale do Paraibuna. Tal variante é simbólica, diz Caio Prado Junior, da transformação operada em Minas, que de mineradora se tornava agrícola e pastoril.16
A Mata era então desconhecida. Vista do litoral, pareciam-lhe impenetráveis os sertões.
Na verdade, após a fundação do Rio de Janeiro, seguida de seu desenvolvimento, os índios começaram a afastar-se, sobretudo os numerosos e aguerridos tamoios. A colonização, desimpedidas as áreas de perigo, marchou com relativa rapidez até o Baixo Paraíba. Ai estancava o avanço.
No outro lado do rio, estavam os puris. Desde a confluência com o Paraibuna até quase a foz do Pomba, tornava-se ele o limite daquele avanço de civilização. A descoberta do ouro nos sertões do Centro dar-se-ia nos finais do século XVII, mas o devassamento e conseqüente povoamento não provocaram a profundidade para os vales dos afluentes esquerdos do Paraíba. Em demanda das minas, os emigrantes, partissem de São Paulo ou do Rio de Janeiro, tomavam a estrada de Matias Barbosa, de onde caminhavam em direção a atual cidade de Baependi. De tal circunstancia resultaria conservar-se convizinha ao litoral fluminense, durante um século e meio, uma floresta virgem habitada apenas por índios e animais.
A tira de selva, muito estreita nas imediações de Mar de Espanha, ia sempre alargando-se para o norte, até juntar-se à imensa floresta capixaba. Matas impenetráveis a estender-se por vales e montanhas, cobrindo os flancos e cumes das serras e formando uma barreira natural ao povoamento dos Sertões do Leste.
Apesar da proximidade da Costa, a ocupação não se fizera. O ouro lá não existia, ou pelo menos nunca aflorou nas bacias dos seus rios. Então, em vez de a corrente imigratória17 seguir a direita ao encontro do Paraíba, espalhou-se pelo norte, pelo sul, e desprezou a parte rica de florestas denominada Áreas Proibidas.
Acresce a isto o concorrer-se outro fator à conservação da barreira. A administração vedava o povoamento, por política fiscal, a fim de proteger o erário. Procurava-se manter a ligação da capitania ao Rio de Janeiro apenas por uma rota, com o fito de resguardar a Coroa do descaminho e contrabando. Este o cuidado principal, sustenta Caio Prado Júnior, motivo por que tão pouco progredira a ocupação da Mata, nome que se deu a zona em oposição ao resto da capitania onde faltava a densa cobertura florestal característica.18
Havia consciência do papel protetor daquelas florestas contra a ação dos sonegadores, haja vista a referencia que o Governador Luis da Cunha Meneses fazia a tais sítios: "Sertão para a parte de Leste, denominado Áreas Proibidas, na hipótese de servirem os ditos sertões de uma barreira natural a esta capitania para segurança de sua fraude..." Constante das medidas legais contra os descaminhos figurava o embrenhamento por picada, caminhos ocultos ou pouco freqüentados.19
A Zona da Mata seria, destarte, resguardada por vicissitudes do ciclo minerador.
Na segunda metade do século XVIII, acentua-se a decadência das Minas Gerais. Sobre o assunto discorreu Oliveira Martins em pagina significativa. Arruinara-se a província e os habitantes atônitos diante do irremediável. Mantinham-se, a principio, indecisos, sem se convencerem da queda de jazigos cada vez menos produtivos.
Em conseqüência, os povoados e cidades paralisavam-se. "Vila Rica atravessava em 1804 uma fase de estagnação. As lavras exaustas haviam reduzido grande parte da população a um estado muito próximo da miséria. Da famosa Idade do Ouro restavam, praticamente, os vestígios materiais nos morros esburacados e nos córregos sinuosos onde renitentes faiscadores teimavam em buscar recursos para sobrevivência. Dava-lhe certo alento a circunstancia de ser a capital administrativa da Capitania, o que implicava a presença obrigatória de funcionários civis e militares com seu séquito de familiares e dependentes."20
Após o delírio da exploração aurífera, nada podia comprazer, e mesquinha afirmava-se aos velhos mineradores a atividade agrícola, A paisagem já revelava a perplexidade. O desânimo alcançara o campo escasso de pastagens e casas em ruínas. O minerador alimentava a crença de veio novo, da saudosa era de riqueza. Seriam precisos, porem, muitos anos para convencer-se de que o metal acabara, de que o remédio era o retorno à agricultura.
José João Teixeira Coelho, o mais lúcido dos estudiosos da decadência dos veeiros, indicou as causas ao Governo da Capitania. A análise do Desembargador referia-se à pobreza dos mineiros, à escassez de escravos, ao regime fiscal e de monopólio, ao mau método de minerar e a outras circunstancias.21 Eschwege reduziu-as à franquia ilimitada das minas e à ausência de leis montanísticas adequadas. Os mineiros só aproveitavam o que podiam separar de um modo imperfeito. Metade do ouro perdia-se na extração e na própria casa de fundir.22
Em fins do século XVIII quase se extinguiram os veeiros. De dezoito mil arrobas no período que medeia entre 1752 e 1787, desceu o produto para três mil e quinhentas nos primeiros vinte anos do século XIX. A lavra passara a absorver o resultado líquido da lavoura. Um velho depoimento registra a que se reduzira uma granja de média importância. "A casa era uma barraca miserável, com muros de taipa de barro, sem vidraça, roída pelo tempo e mal defendida contra as chuvas. O chão era a terra úmida e negra., sem ladrilhos nem sobrado, saturada de imundícies e endurecida pelo perpassar dos moradores, homens e cevados, que viviam numa promiscuidade repugnante. Por camas, enxergas duras para os amos, um couro ou uma esteira sobre o chão para os servos. A ninhada das crianças alegrava-se seminua, esfarrapada e descalça, as mulheres enfezadas e pobremente vestidas, e o chefe da casa, indolentemente embrulhado na capa, com os socos nos pés, vigiava o trabalho dos negros, lavando o cascalhinho com a sempre mantida esperança da descoberta de um deposito abundante de ouro."
As dividas cresciam. O metal cada vez mais reduzido. E vinte anos foram necessários para que se decidisse o mineiro abandonar a exploração das minas estéreis e entregar-se à lavoura.
Desenganada de ouro, diz Capistrano de Abreu, buscou a população outros meios de subsistência: criação de gado, agricultura de cereais, plantação de cana, de fumo etc. Em Minas Novas, até onde havia avançado o esforço aurífero, a cultura de algodão o substituía. Disto resultara, na terceira metade do século XVIII, um crescimento demográfico a conservar o nível do desenvolvimento anterior e facilitar mais tarde a penetração à Zona da Mata pelo vale do Doce.23
Saint-Hilaire traçou, em linhas gerais, o quadro inicial da maior parte das vilas mineiras. Seus primeiros povoadores foram atraídos pelo ouro que se extraía antigamente, em abundância, do leito do rio, e vêem-se, ainda hoje, sobre as margens, alguns montes de cascalho, resíduos das lavagens, mas o ouro se esgotou, os braços faltaram e os habitantes terminaram por renunciar definitivamente ao trabalho das lavagens. Vivem agora do produto das suas terras.24
Mas o deslocamento dos geralistas processa-se rumo ao território fluminense. Contornando as Áreas Proibidas, chegava aquela gente ao litoral, cujo desenvolvimento agrícola se intensifica. Celebre ficaria no planalto de Minas a expressão – foi para a Mata do Rio, ainda há um século empregada. O surto cafeeiro acelerava o povoamento compacto, dinâmico, contínuo, podendo ser classificado como expansão do tipo "mancha de óleo", idêntico ao das fazendas de gado e somente com estas contrastando do ponto-de-vista da dispersão, já, que se apresenta mais concentrado.25 Penetrando, o café ocupou extensa área propícia à sua floração.
Toda a vasta zona dos municípios de Resende, Barra Mansa, Barra do Pirai, Vassouras, Valença, Paraíba do Sul, Carmo, Pádua, Itaocara, Monte Verde, São Fidélis, cobriu-se de mineiros que, nos finais do século XVIII e começo do século XIX, abandonaram a mineração. Em 1840, Francisco Leite Ribeiro relatava a Gardner: "Os apelidos Monteiro de Barros, Teixeira Leite, Bastos, Pita de Castro, Barbosa de Castro, Vieira de Resende, Dutra, Corte Real, Moreira de Faria, Junqueira, Campelo, Lobato e tantos outros que ainda hoje figuram entre os fazendeiros dessa região, indicam a descendência de famílias mineiras da época mineradora."
Honório Silvestre descreve-nos o movimento demográfico, chamando a atenção para a circunstância de que o café não prendeu os montanheses no territ6rio fluminense. Este os levariam às Florestas da Mata, campo escolhido para o desdobramento de energias novas.