domingo, 13 de novembro de 2016

MINERAÇÃO NO BRASIL 1.2 — Processos de Extração

Insistindo no que afirmam outros estudiosos, Roberto Simonsen, em sua História Econômica do Brasil, diz: “A mineração do ouro no Brasil colonial teve um aspecto acentuadamente aventureiro, quer pelo caráter das ocorrências e a sua localização, quer pela natureza dos seus explora- dores e dificuldades da época”. Entre os fatos negativos, prossegue o autor, os mineradores, na ânsia de descobrir veeiras — de onde provinham os maiores depósitos aluvionais, praticaram grandes queimas, devasta- doras de extensas zonas de mato. Este fato, ligado à não existência de uma organização de retaguarda, constribuiu demais para os sérios pro- blemas de fome entre os sacrificados mineradores. O processo do aparecimento do ouro aluvional é o seguinte: no fraturamento e desgaste, pelas intempéries, dos terrenos mineralizados, vão-se formando cascalhos que, rolados pelas águas, formam as areias mineralizadas. No carregamento, pelas enxurradas, dessas areias, vão-se depositando na parte inferior as partículas mais pesadas, trans- portadas pelas águas as mais leves. Nos vales dos rios, cujas areias se revelaram auríferas, deparavam-se com freqüência em “caldeirões” os mais ricos cascalhos e depósitos auríferos; nos tabuleiros, nas margens das águas correntes e depósitos primitivos do mesmo curso d’água, encontravam-se camadas de cascalhos auríferos cobertas por depósitos de estéres (ouro aluvional) . Não era de estranhar, portanto, que muitas bandeiras passassem sobre locais que mais tarde se mostraram fortemente auríferos, sem disso aperceberem. A busca desses metais demandava tempo, conhe- cimentos e aparelhamento, e as bandeiras, de gente de poucos recursos, como eram os paulistas, não poderiam trocar o certo, que era a caça ao íncola, pela incerteza das pesquisas auríferas. Estudos sobre os métodos de mineração empregados nas Gerais mostram alguns dos motivos causadores de embaraço, desassossego e agitação nas Minas: o empobrecimento das aluviões, faisqueiras e catas; as deman- 14 das intermináveis resultantes de quesílias entre titulares de datas; a para- lização de serviços pela morte dos donos; os desentendimentos entre os herdeiros, ou seja, incapacidade de manter as lavras em atividade, preferindo vê-las paralizadas ao arrendamento; as questões judiciais suscitadas por abusos ou pela incompetência dos guardas-mores. Mostram ainda as vantagens e falhas dos métodos e as causas dos empecilhos que perturbaram a eficiência dos trabalhos na segunda metade do século XVI II. São particularmente valiosos os trabalhos elaborados pelo Des. João Teixeira Coelho, Eschwege, Paul Ferran e Calógeras.
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Lavras de aluvião: compreendia os serviços dos veios , o dos taboleiros e os de grupiaras. Lavras das camadas e dos viveiros auríferos: constava dos serviços no fundo dos vales, ou das encostas e dos serviços subterrâneos. Os veios eram as constitutivas do proprio leito menor dos córregos; os taboleiros eram as aluviões que ocupavam o seu Leito maior, com as margens propriamente ditas. O serviço das grupiaras, a meia encosta, era semelhante ao serviço dos tabuleiros: era também aproveitada a força viva das águas correntes para o desmonte e o enriquecimento dos depósitos. Para este fim traziam de pontos longínquos canais de derivação, a fim de chegarem com queda suficiente ao alto da grupiara, donde as águas desciam sobre a formação pela linha de maior declive, ao longo da qual os escravos já tinham aberto um rego com as suas cavadeiras. O líquido, aberta então a comporta, caía impetuosamente sobre o material mobilizado pelos instrumentos de trabalho e arrastava as terras até o fundo do vale, onde os detritos eram recebidos em canal largo, de dois metros, com barragens. O lodo aurífero ia acumulando-se neste canal, enquanto as águas turvas iam para o vale. O ataque direto nas rochas auríferas pelos mineiros só se fez quando as aluviões escassearam. Nas rochas, quando as camadas estéries a remover começavam a avultar demais, ou quando as rochas não apresentavam mais alterações profundas que as tornassem friáveis, ou mesmo quando sua natureza se revelou mais compacta, foi necessário revolucionarem-se os antigos processos à procura de outros. Caso dos mais simples era a camada de itabiritos auríferos, ou de chapéus de veeiros de quartzo, profundamente decomposto, aflorando no fundo dos vales. O material a tratar era poder e prestava-se à remoção com os instrumentos primitivos de que dispunham: abriam-se catas, que iam encontrar argilas mais ou menos carregadas de óxido de ferro, com alta porcentagem de metal precioso, levadas em carumbés, na cabeça dos escravos, até o local da apuração. Eram freqüentes os chapéus de viveiros riquíssimos. São célebres as jazidas de bugres, de Antônio Pereira, pró- ximo a Ouro Preto. Freqüentemente ocorria casos de desmoranamentos, quando morriam escravos e feitores. Quando as rochas auríferas, veeiros decompostos em sua parte superior ou camadas de itabiritos, afloravam a meia encosta dos morros, aplicavam-se métodos similares aos adotados nas grupiaras. Para aumentar a ação da água sobre as rochas, costumavam estancá-las e, abrindo o registro, repentinamente, esta provocava um choque violento sobre as jazidas. Método eficaz mas muito perigoso. Os trabalhos subterrâneos, por meio de escavações, seguindo a incli- nação do veeiro, em pequenas galerias de esgotamento outras para extrair o minério, muito curtas todas, e traçadas sem nexo. Obstáculos aos trabalho subterrâneos: explosivos custavam muito caro; poucos os conhecimentos práticos para lutar contra má qualidade das rochas encaixantes,17 provocadoras de esboroamentos perigosos; iluminação rudimentar nas galerias e salões mal arejados; comuns os casos de asfixia, precário o escoamento das águas nas galerias. Já no fim do século XVIII, os mineiros tinham descoberto que o íman natural, o óxido magnético de ferro, atraía as partículas de oligisto existentes no meio do ouro e serviam-se dele para purgar o pó precioso. Mas esta operação só se fazia após a passagem das areias ricas pela bateia, como última manobra purificadora antes do tratamento químico das casas de fundição. Mais tarde, evoluíam-se para a técnica do uso do mercúrio para reter todo o metal das areias. Resumindo: os mineiros dos tempos coloniais exploravam as aluviões (dentro ou fora dos rios) , as rochas friáveis auríferas e, raramente as rochas duras (desde que fosse visível a existência do ouro) . Para estas últimas fazia-se o trituramento e o esmagamento prévio, antes de se proceder ao tratamento hidráulico. De início a bateia era usada também para explorar areias, diretamente; depois, com o processo hidráulico, a bateia estava sempre presente na parte final da coleta do ouro — em resíduos mais ricos.