sábado, 24 de dezembro de 2016

6.6 FRANCESES E LÍNGUA GERAL (Transcrição)

6.6 FRANCESES E LÍNGUA GERAL O plano de conquista e ocupação francês se revela, a cada passo das cartas jesuíticas e escritos dos primeiros cronistas, de atilada preocupação de captação do indígena através de imersão em seu mundo, sobressaindo das movimentações gaulesas a preocupação com o aprendizado célere e eficiente da língua indígena. Um trecho de Anchieta em Informações...(1988:319) é muito claro quanto a isso: “Deixavam [os franceses] na terra que aprendessem a língua dos índios, e homens que fizessem ter prestes as mercadorias para quando viessem as naus”. Os gauleses, nesse plano estratégico, exploravam inclusive a prática cultural do cunhadismo entre os índios Tupi, tanto com os Tupinambá no Maranhão quanto com os Tamoio no Rio de Janeiro, tática de infiltração que deu lugar ao tipo pitoresco do “índio louro”, fruto da miscigenação desses futuros “línguas com as nativas”. Informa Gabriel Soares de Sousa (2000:291):
Deixavam [os franceses] entre os gentios alguns mancebos para aprenderem a língua e poderem servir na terra, quando tornassem da França, para lhes fazer seu resgate; os quais se amancebaram na terra, onde morreram, sem se quererem tornar para a França, e viveram com os gentios com muitas mulheres, dos quais, e dos que vinham todos os anos à Bahia e ao rio de Seregipe em naus de França, se inçou a terra de mamelucos, que nasceram, viveram, e morreram como gentios; dos quais há hoje muitos descendentes, que são louros, alvos e sardos, e havidos por índios Tupinambás, e são mais bárbaros que eles.  
É também nessa linha a descrição de Freyre (2002a:165): “Meninos que cresceram à toa, pelo mato; alguns tão ruivos e de pele tão clara, que, descobrindo-se mais tarde a eles e a seus filhos entre o gentio, os colonos do fim do século XVI facilmente os identificaram como descendentes de normandos e bretões”. Com igual tez eram os filhos dos Potiguara, “senhores da Paraíba, 30 léguas de Pernambuco [....] grandes amigos dos franceses [....] casando com eles suas filhas, no relato de Cardim (1980:102) e de Villalta (2002:342-3). Também Capistrano de Abreu (1963:85) dá notícia desse mestiçamento cujas marcas foram deixadas no litoral e sertão da Paraíba e Ceará. Em duas passagens de suas Cartas... (1988: 215), Anchieta registra a simpatia de um índio tamoio pelos franceses, cuja filha, que lhe deu um neto, era amancebada com um deles. Na outra passagem, o jesuíta, então prisioneiro dos Tamoio no episódio de Iperoig, em que, após momentos de vívida tensão no processo de negociação de paz, que “significa a vitória sobre os franceses estabelecidos nas ilhas da baía do Rio de Janeiro”, escreve Teodoro Sampaio (1978e:241), pôs-se a dialogar francamente com um francês na língua brasílica, dado inexistir entre ambos outra língua de intercomunicação (1988: 218). A influência lingüística das investidas dos franceses às costas do Brasil, que progrediram a partir do primeiro terço dos Quinhentos, também projetou influência na língua geral falada em São Paulo, já que os tamoios, que eram índios tupis, depois de terem mantido longa aliança com os gauleses, foram dominados pela colonização portuguesa. Mesmo em São Vicente sua presença foi registrada, como escreve Nóbrega (2000:330) ao informar que “é cercada [a Capitania de São Vicente] de todas as partes de seus inimigos, scilicet, contrários e franceses” e ainda por documento encontrado por Jaime Cortesão (1955:218) . O reverso dessa influência é ainda mais acentuado, já que ao léxico francês foram incorporados vários vocábulos tupis, conforme antigo e meticuloso estudo de restauração gráfica feito por Rodolfo Garcia (1944:131), que escreve:  
O Tupi foi dos maiores contribuintes nesse saqueio operado pela civilização ocidental, o que se explica pela circunstância de que os povos, que falavam a língua depois assim chamada, eram os ocupantes da extensão mais considerável do litoral sul-americano e foram os primeiros a entrar em contacto ou em choque com os navegantes e traficantes europeus, os franceses em magna parte. 
Dos livros de viagens passaram aqueles termos, mais ou menos alterados, para a literatura científica, para a linguagem corrente, e daí para os dicionários, incorporados ao patrimônio idiomático de cada povo. Sofreram naturalmente modificação gráfica, de acordo com a organização glótica dos indivíduos que os receberam; mas essa alteração não é tanta que a um exame mais atento se não denuncie a origem da palavra e lhe não permita a identificação quanto possível perfeita.  
Por outro lado, esse enfoque da presença francesa mostra a importância da língua geral e seu aprendizado pelos exploradores contrários ao missionamento feito pelos padres da Companhia de Jesus. Havia uma guerra ideológica pervadida por discursos em língua tupi na tentativa de cooptar os poderosos e beligerantes índios nativos. Considerando sua condição de invasores, não era menor o empenho dos franceses em seduzir os nativos, atirando-se a uma indianização só comparável àquela a que se submeteu João Ramalho, embora aí por motivos diversos. A sedução dos Tamoio, sobretudo, significava incutir-lhes a imagem de docilidade e adaptabilidade dos gauleses, além de tudo generosos na distribuição de produtos de seu avançado progresso técnico em comparação com a idade da pedra em que viviam os índios. Esse trecho de Anchieta (1988:219) ilustra a estratégia francesa na imersão cultural e lingüística com os Tamoio: A vida dos Franceses que estão neste Rio é já não somente hoje apartada da Igreja Católica, mas também feita selvagem; vivem conforme aos Índios, comendo e bebendo, bailando e cantando com eles, pintando-se com suas tintas pretas e vermelhas, adornando-se com as penas dos pássaros, andando nus às vezes, só com uns calções, e finalmente matando contrários, segundo o rito dos mesmos Índios. Darcy Ribeiro (2001:85) mostra como essa indianização dos franceses obedeceu a um plano bem estruturado, valendo-se inclusive das mesmas técnicas dos portugueses: Os franceses, por igual, fundaram seus criatórios com base no cunhadismo. Tantos que, no dizer de Capistrano de Abreu, por muito tempo não se soube se o Brasil seria português ou francês, tal a força de sua presença e o poder de sua influência junto aos índios. O principal deles foi o que se implantou na Guanabara, junto aos Tamoio do Rio de Janeiro, gerando mais de mil mamelucos que viviam ao longo dos rios que deságuam na baía. Inclusive na Ilha do Governador, onde deveria se implantar a França Antarctica. Para Florestan Fernandes (2000:801-1), na passagem a seguir transcrita, essas relações dos franceses com os indígenas não tiveram o mesmo cunho exploratório das travadas pelos nativos com os portugueses. 
Os brancos viviam nos grupos locais, literalmente sujeitos à vontade dos nativos; ou se agrupavam nas feitorias, dependendo tanto sua alimentação quanto sua segurança do que decidiam fazer os “aliados” indígenas. Os contactos dos Tupis com os franceses sempre se fizeram segundo esse tipo de relação. Mas, a partir de 1533, aproximadamente, os portugueses puderam alterar, em várias regiões ao mesmo tempo, o caráter de seus contactos com os indígenas, subordinando-os a um padrão de relação mais favorável com seus desígnios de exploração colonial da terra, dos recursos que ela possuía e dos moradores nativos. (....) Subverteu-se o padrão de relação, passando a iniciativa e a supremacia para as mãos dos brancos, que transplantaram para os trópicos o seu estilo de vida e as suas instituições sociais. Essa apreciação do sociólogo paulista é equivocada. A imersão dos franceses no mundo dos Tamoio não significava senão refinado planejamento estratégico de construir aliança com aquela etnia indígena, elemento de vital importância para desmontar a máquina portuguesa instalada, não lhes sendo útil nem necessário iniciar um processo de apresamento, escravização e dizimação de índios como os portugueses fizeram muitas vezes de forma contraproducente. O que viria depois, se tivesse sido bem-sucedida a colonização francesa, é algo que não convinha pensar naquele momento. O que se vê dos vários passos dos escritos jesuíticos é que os Tamoio foram tecnicamente preparados pelos franceses para guerrear com os colonos e jesuítas portugueses. Anchieta deixa isso claro tanto em Cartas... (1988:209 e 219): “com isto e com lhes dar todo gênero de armas, incitando-os sempre que nos façam guerra e ajudando-os nela”, quanto em Informação do Brasil e suas capitanias (1988:313): “a nação dos Tamoios, que ainda estava muito soberba e forte com muitas armas dos Franceses, espadas, adagas, montantes, arcabuzes e tiros grossos”. Pode-se dizer que a infiltração dos franceses na cooptação dos Tamoio foi eficiente. Esses métodos na persecução de etapas cada vez mais bem-sucedidas consistiam, muitas vezes, em hostilizar até mesmo seus nacionais de coloração católica, que pudessem representar uma dissensão ao discurso de desmonte da pregação dos jesuítas, a exemplo do que aconteceu com os frades da ordem de São Bernardo chegados ao Rio, que, mesmo vivendo afastados, foram submetidos a perseguição e morte pelos índios Tamoio a instância dos franceses. Os remanescentes deles, expulsos do Brasil, foram mortos pelos exploradores franceses antes de pisarem em solo francês, relata Anchieta (1988:218). A contraparte portuguesa era de igual medida, tanto que nas lutas de expulsão dos franceses do Rio de Janeiro em 1564, Estácio de Sá, depois de lançar fora “150 Franceses que havia dentro em uma nau”, decidiu por deixá-los “ir em paz por serem mercadores e ao parecer católicos, que não vinha povoar”, relata Anchieta em Informações... (1988:315). Outro exemplo dessa eficiência nos meios suasórios instrumentalizados pelos franceses com o domínio da língua geral se vê do episódio do processo de paz em Iperoig, em que recorrentemente aparecia um desses índios vindos do Rio de Janeiro para tentar, insidiosamente, convencer seus irmãos de supostas más intenções dos cristãos portugueses na negociação de paz. Apesar de pilhados em suas mentiras, esses tamoios, mesmo depois de concluída com êxito a negociação, nunca se deixaram apartar do convívio e aliança com os franceses, como narra Anchieta (1988: 245): “Dos [tamoios] do Rio já quase tínhamos o desengano que não queriam pazes”. Mas ele mesmo admite que o sistema de aliança adotado pelos franceses tinha muita penetração, a ponto de prever que mesmo os Tamoio de Iperoig poderiam voltar à animosidade inicial: “Só os moradores dos lugares de Iperuig hão sido constantes até agora e alguns deles ainda estão entre nós; mas por fim farão o que a maior parte dos seus fizerem”. Em outro passo, Anchieta (1988:244) mostra a dificuldade de quebrantar a manipulação ideológica dos franceses nos tamoios: “Eles mesmos nos avisavam que não nos fiássemos dos do Rio de Janeiro, porque estão mui soberbos com as muitas coisas que lhe dão os Franceses”. O padre canarino deixa claro que a forma como foram “injustiçados” pelos portugueses criou essa desavença que tanto trabalho deu às missões jesuíticas, chegando a pôr-lhes em risco a sobrevivência (1988:202):
Desta outra banda do Norte temos os contrários, inimigos também destes nossos Índios, dos quais muitas vezes tenho escrito. Estes parece que têm justiça contra os Portugueses, pelas muitas injustiças e sem razões que deles têm sempre recebido, e por isso os ajuda sempre a Divina Justiça, porque vêm mui a miúdo por diversas partes, por mar e por terra, se sempre levam escravos dos Cristãos, matando os mesmos homens.  
Nas Informações...(1988:318) ele acresce: “ Os Franceses não desistiram do Brasil, e o principal foi no Cabo Frio e Rio de Janeiro, terra de Tamoios, os quais, sendo dantes muito amigos dos Portugueses se levantaram contra eles por grandes agravos e injustiças que lhes fizeram, e receberam os Franceses, dos quais nenhum agravo receberam”. É ainda esse jesuíta quem relata que a prática exterminadora levada a cabo pelos portugueses contra os índios era a responsável pelo despovoamento de áreas atacadas por exploradores estrangeiros, contra os quais a aliança com índios amigáveis fez muita falta (1988:314): Deu tanta guerra [Duarte Coelho, filho] aos Índios com favor de um clérigo que se tinha por nigromântico que destruiu toda a sua Capitania e assim desde o rio de S.Francisco até lá, que são 50 léguas, não há povoação de Índios, e fica agora sem ajuda deles, e é agora aquela Capitania [Pernambuco] com a de Itamaracá, que toda se reputa por uma, mui molestada dos Índios Pitiguaras, moradores do rio chamado Paraíba, onde têm grande comércio os Franceses por causa do pau de Brasil, e os ajudam nas guerras e fazem muito mal por terra e por mar aos Portugueses, os quais não têm Índios amigos que os ajudem porque os destruíram todos. A seguinte informação dada por Capistrano de Abreu (1963:76) conflui para a veracidade desse último depoimento: “Com a derrota dos naturais de Paraguaçu e Ilhéus destruiu-se o que poderíamos chamar uma marca da língua geral e irromperam os Tapuias, até então sopeados. Ninguém lucrou com a substituição”. Dessas passagens, algumas conclusões se impõem: a primeira é que o discurso catequético, através da língua geral, não se revelava de incontrastável infalibilidade, nem mesmo em relação a índios já completamente aculturados e escolarizados, como no caso daquele referido pelo quinhentista Ambrósio Fernandes Brandão (1994:239-40): 
Os Padres da Companhia ensinaram a um destes índios, por sentirem nele habilidade, a ler e a escrever, canto e latinidade, e ainda algum pouco das artes, mostrando-se ele em tudo mui ágil e de bons costumes; chegaram a lhe fazer dar ordens menores, e cuido que ouvi dizer que também as de epístola e evangelho, para o ordenaram em sacerdote de missa. Mas o bom do índio, obrigado de sua natural inclinação, amanheceu um dia despido, e se foi, com outros parentes seus, para o sertão, aonde exercitou seus bárbaros costumes até a morte, não se alembrando dos bons que lhe haviam dado. O próprio Nóbrega (2000:222) dá notícia de um índio, criado desde pequeno, “bom cristão” que, no entanto, “fugiu-me para os seus”. A segunda é que o domínio da língua geral era peça-chave no xadrez político de todas as nações com interesse econômico no Brasil, ainda que essa forma de dominação viesse sob a forma de discurso religioso.